Quando um paciente pensa em realizar uma cirurgia plástica, é natural que surjam dúvidas. Como será a preparação? Quais exames serão necessários? Qual anestesia será utilizada? Quanto tempo dura a cirurgia? Como será a recuperação? Quando poderei voltar às minhas atividades?
Essas perguntas sempre fazem parte da consulta inicial e, na minha visão, devem ser respondidas com clareza antes de qualquer decisão ser tomada.
O fato é que a cirurgia não começa no centro cirúrgico, pois existe uma jornada que envolve avaliação, preparo, planejamento, procedimento e acompanhamento e quanto melhor o paciente compreende cada etapa, mais consciente e tranquilo ele pode participar das decisões relacionadas ao próprio tratamento.
A primeira etapa é conhecer o paciente
Toda indicação de cirurgia plástica começa com uma avaliação detalhada, minuciosa e individualizada, já que antes de pensar na técnica cirúrgica, é preciso conhecer profundamente o paciente, considerando seu histórico de saúde, hábitos de vida, medicamentos em uso, cirurgias anteriores, alimentação, prática de atividade física, qualidade do sono e suas expectativas.
A anamnese é uma parte importante dessa avaliação e permite compreender aspectos que muitas vezes não aparecem em um exame físico ou em uma fotografia, afinal entender o que levou aquele paciente a buscar a cirurgia e o que ele espera alcançar, ajuda e muito, na indicação cirúrgica que precisa fazer sentido para aquela pessoa, naquele momento.
Os exames fazem parte do planejamento
Os exames pré-operatórios não devem ser vistos como uma formalidade, eles são solicitados de acordo com as características clínicas do paciente e com o procedimento que está sendo planejado e, dependendo da situação, podem incluir exames laboratoriais, avaliações cardiológicas ou outras avaliações complementares.
O objetivo é conhecer melhor as condições de saúde antes da cirurgia e identificar situações que mereçam atenção, com quando existe alguma alteração clínica, nutricional ou metabólica que possa interferir no tratamento, e que deve ser tratada primeiro e só depois reavaliar a indicação cirúrgica.
Esse é um dos princípios que considero fundamentais: existe um momento adequado para operar e existe um momento adequado para preparar o organismo.

O preparo começa antes da cirurgia
Uma cirurgia bem planejada envolve mais do que escolher uma data, pois de acordo com cada paciente, o período pré-operatório pode incluir ajustes na alimentação, controle de doenças preexistentes, orientação sobre medicamentos, interrupção do tabagismo e outras medidas específicas.
Quando há indicação, a avaliação também pode incluir aspectos nutricionais e suplementação de vitaminas ou minerais, sendo necessário avaliar individualmente caso a caso, de acordo com a alimentação, os exames e as condições clínicas de cada pessoa.
Esse cuidado faz parte da visão integrada que procuro aplicar à cirurgia plástica de que acolher e preparar o paciente para a cirurgia também é uma forma de cuidado.
E a anestesia?
A anestesia é uma etapa fundamental da segurança cirúrgica e o tipo de que será utilizado, depende do procedimento, da duração prevista, das condições clínicas do paciente e da avaliação do médico anestesiologista.
Nos procedimentos eletivos, o Conselho Federal de Medicina estabelece a importância da avaliação pré-anestésica e determina que o anestesiologista conheça previamente as condições clínicas do paciente. Durante anestesias gerais ou regionais, o médico anestesiologista deve permanecer na sala e manter vigilância permanente durante o ato anestésico.
Por isso, anestesia não deve ser encarada como um detalhe da cirurgia que faz parte do planejamento e da segurança do paciente e principalmente, é importante compreender que não existe uma anestesia “melhor” para todos e sim a estratégia anestésica mais adequada para cada situação.
Quanto tempo dura uma cirurgia plástica?
Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório e a resposta depende do procedimento e, principalmente, do planejamento realizado para aquele paciente.
Uma cirurgia pode durar algumas horas, mas não existe um tempo padrão que possa ser aplicado a todos os procedimentos ou pacientes e a duração é influenciada pela técnica, pela extensão da cirurgia, pelas condições anatômicas e pela associação ou não de procedimentos.
Na minha prática, considero importante avaliar cuidadosamente o tempo cirúrgico e a necessidade de realizar procedimentos em conjunto, mantendo um número de horas restrito, para o paciente estar em cirurgia e, em determinadas situações, realizar cirurgias mais curtas ou dividir o tratamento em etapas pode ser uma estratégia mais adequada.
A segurança deve participar dessa decisão desde o início e a Organização Mundial da Saúde também destaca a importância de protocolos estruturados de segurança cirúrgica, com verificações realizadas antes da anestesia, antes da incisão e antes da saída do paciente da sala cirúrgica.

O que acontece depois da cirurgia?
O término do procedimento marca o início de outra etapa importante: a recuperação.
O pós-operatório exige acompanhamento, atenção aos sinais apresentados pelo organismo e cumprimento das orientações médicas e dentro das expectativas para essa etapa é comum existir algum grau de inchaço, alteração de sensibilidade ou desconforto após determinados procedimentos. A intensidade e a duração dessas manifestações variam de acordo com a cirurgia e com cada paciente.
Por isso, gosto de reforçar que o paciente não deve comparar sua recuperação com a de outra pessoa pois cada organismo possui seu próprio ritmo.
As consultas de retorno fazem parte da cirurgia
Uma das partes mais importantes da jornada é o acompanhamento após o procedimento.
Não considero o retorno uma simples formalidade. É durante essas consultas que avaliamos a evolução da cicatrização, o estado dos tecidos, possíveis alterações e o momento adequado para cada nova etapa da recuperação e na minha prática, o acompanhamento pode ser organizado em diferentes momentos:
7 dias: primeira avaliação da evolução inicial, cicatrização e cuidados imediatos.
15 dias: acompanhamento da recuperação e orientação sobre a progressão dos cuidados e atividades.
30 dias: avaliação da evolução dos tecidos, cicatrização e adaptação à rotina.
60 dias: acompanhamento da evolução do resultado e da recuperação funcional.
90 dias: nova avaliação da evolução clínica e da aparência dos tecidos.
120 dias: acompanhamento de uma fase mais avançada da recuperação.
180 dias: avaliação de longo prazo e evolução do objetivo final.
Esses períodos são referências de acompanhamento e podem variar conforme o procedimento, as condições do paciente e sua evolução, lembrando que algumas situações exigem retornos adicionais ou intervalos diferentes, mas o mais importante é que o paciente tenha acompanhamento adequado e próximo durante todo o período necessário.
Alcançar o objetivo final também exige tempo
Uma das maiores fontes de ansiedade no pós-operatório é esperar que o objetivo final apareça imediatamente, mas a cirurgia modifica os tecidos e o organismo precisa de tempo para desinchar, cicatrizar e se adaptar.
Por isso, uma fotografia dos primeiros dias ou das primeiras semanas representa apenas uma etapa da recuperação e somente o acompanhamento médico permite observar essa evolução com mais segurança e orientar o paciente sobre aquilo que pode ser esperado em cada fase.
Uma jornada, não apenas um procedimento
A cirurgia plástica é uma especialidade que envolve planejamento, técnica, acompanhamento e uma relação próxima entre médico e paciente, por isso, não vejo a cirurgia como um evento isolado.
Ela começa na primeira consulta, passa pela avaliação clínica e pelos exames, continua no preparo do organismo, envolve a equipe cirúrgica e anestésica e segue durante toda a recuperação.
O procedimento pode durar algumas horas, mas a jornada completa do paciente é muito mais longa e é justamente por isso que acredito em uma cirurgia plástica individualizada, em que cada etapa é planejada de acordo com a pessoa que está diante de mim.
Meu papel não é apenas realizar a cirurgia. É orientar, acompanhar e ajudar o paciente a tomar decisões seguras ao longo de todo o tratamento e quando o paciente entende essa jornada, ele percebe que não precisa enfrentar a cirurgia com medo ou com expectativas irreais, mas sim, estar bem informado, preparado e acompanhado.
Porque nenhuma cirurgia começa no centro cirúrgico. Ela começa muito antes, na relação de confiança entre médico e paciente.
As informações deste artigo são educativas e não substituem avaliação médica individualizada.




