Existe uma história muito conhecida sobre as Amazonas, as mulheres guerreiras que aparecem em diferentes relatos da Antiguidade grega, que narra o que seria uma tradição que se tornou bastante difundida de que, para se tornarem guerreiras invencíveis, essas mulheres retiravam uma das e assim conseguiam manejar melhor seu arco nas batalhas.
Obviamente a história é fascinante, mas existe um detalhe importante: não há evidências históricas e arqueológicas suficientes para afirmar que as Amazonas realmente realizavam a retirada de uma mama como parte de sua tradição.
O relato parece ter surgido, em parte, de uma interpretação feita na Antiguidade sobre o próprio nome “Amazon”, na qual o historiador grego Hellanikos, no século V a.C., teria relacionado o termo às palavras gregas associadas a “sem mama”. A partir daí, criou-se uma explicação para justificar uma característica que, aparentemente, já fazia parte do imaginário grego sobre essas guerreiras.
Curiosamente, representações antigas de Amazonas encontradas na arte grega e romana costumam mostrá-las com as duas mamas, ou seja, a imagem da Amazona que retirava um seio para lutar melhor provavelmente pertence muito mais ao campo do mito do que ao da realidade histórica.

Porém essa história nos leva a uma reflexão interessante:
O que acontece quando a mama deixa de ser apenas uma “parte” do corpo e passa a representar identidade, feminilidade, saúde e até a maneira como uma mulher se reconhece?
A mama sempre teve um significado que vai além da anatomia
Na medicina grega antiga, explicitada através de escritos de Hipócrates e outros médicos da antiguidade, a mama já despertava interesse e textos que abordavam aspectos relacionados à anatomia, à amamentação e às doenças mamárias.
Hoje, evidentemente, nosso conhecimento médico é muito diferente e auxiliados por exames de imagem, anatomia cirúrgica detalhada, técnicas de reconstrução e próteses temos uma compreensão muito maior sobre as doenças da mama.
Mas a questão de como cuidar da mulher quando uma doença ou uma cirurgia altera o seu corpo, permanece e se torna assuntos cada vez mais acordado e discutido.
Quando retirar a mama é necessário
Atualmente, a mastectomia pode fazer parte do tratamento de diferentes doenças mamárias, especialmente do câncer de mama e em determinadas situações, retirar todo ou parte do tecido mamário é necessário para tratar a doença ou reduzir determinados riscos posteriores.
Tratar a doença é parte essencial do cuidado, mas é FUNDAMENTAL, olharmos para o que acontece com aquela mulher depois da cirurgia, já que a perda da mama pode representar uma mudança corporal importante e pode afetar autoestima, imagem corporal, intimidade e qualidade de vida.
Nesse contexto, entra a reconstrução mamária, uma cirurgia plástica reparadora que permite restaurar o volume e o contorno da mama utilizando diferentes técnicas, como implantes, expansores ou tecidos da própria paciente e a escolha depende de diversos fatores, como o tipo de mastectomia, tratamentos complementares, características corporais e condições clínicas.
A reconstrução mamária também tem história…
Um dos primeiros relatos reconhecidos de reconstrução mamária ocorreu em 1895, quando o cirurgião alemão Vincenz Czerny utilizou tecido adiposo de outra região do corpo para reconstruir uma mama após a retirada de um tumor benigno e a partir daí, nas décadas seguintes, diferentes cirurgiões desenvolveram técnicas utilizando tecidos do próprio corpo.
Desde então, a evolução foi grande e hoje, a reconstrução pode acontecer imediatamente após a mastectomia ou em um segundo momento, dependendo das condições clínicas e do tratamento oncológico.
O caráter profundo agregado à Cirurgia Plástica reconstrutiva.
A evolução dos conhecimentos médicos ao longo do tempo, mostra como a cirurgia plástica deixou de ser compreendida exclusivamente como uma maneira de modificar a aparência e hoje, a especialidade possui duas grandes frentes que caminham juntas: a cirurgia estética e a cirurgia reconstrutiva.
Na mama, essa relação fica especialmente evidente, pois a mesma especialidade que pode realizar uma mamoplastia redutora, uma mastopexia ou uma cirurgia de aumento mamário também pode reconstruir uma mama após uma mastectomia.
O objetivo muda de acordo com a necessidade da paciente já que em um caso, podemos estar buscando conforto físico ou equilíbrio corporal e em outro, reconstruindo uma estrutura que precisou ser retirada para tratar uma doença e recuperando muito além da estrutura física.

O que mudou desde as Amazonas?
Talvez seja justamente aqui que a história das Amazonas encontre a medicina atual já que naquela narrativa antiga, o corpo feminino seria modificado para cumprir uma determinada função: tornar a mulher uma guerreira mais eficiente.
Na lenda das Amazonas, a coragem e determinação das guerreiras lembra a paciente que hoje atendemos: delicada, formosa, mas forte e poderosa para superar o desafio do seu tratamento, que é tão agressivo quanto for o estágio da doença. Esta postura deve ser tomada com sabedoria, amparada por profundo conhecimento científico e técnico, e amparada enquanto a paciente se recupera para retomar sua vida, sua auto-estima e seu equilíbrio.
Hoje, a medicina procura fazer algo muito diferente. Não existe evidentemente um corpo feminino ideal que todas as mulheres devam alcançar mas sim o corpo de cada paciente, sua história, sua saúde, suas necessidades e suas escolhas.
A cirurgia plástica contemporânea permite reconstruir, restaurar, reduzir, aumentar ou remodelar estruturas corporais, mas a indicação deve partir daquilo que faz sentido para cada pessoa, e isso deve valer tanto para uma cirurgia estética quanto para uma cirurgia reconstrutiva.
A mama depois do câncer
Quando uma mulher passa por uma mastectomia, reconstruir a mama não significa simplesmente colocar uma prótese, tornando-se necessário avaliar a pele disponível, os tecidos, a necessidade ou não de radioterapia, o tipo de mastectomia realizada, o outro lado da mama e as condições gerais da paciente.
Em algumas situações, a reconstrução pode ser feita com implante, em outras, pode ser utilizada a própria pele e gordura da paciente, por meio de técnicas de reconstrução autóloga. Lembrando que também pode ser necessário realizar mais de uma etapa cirúrgica posterior para alcançar o efeito visual e físico desejado.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica destaca justamente que a reconstrução mamária frequentemente envolve múltiplos procedimentos e que a escolha da técnica depende das características individuais da paciente e do tratamento realizado.
A reconstrução não apaga a história
É importante entender também que reconstruir uma mama não significa apagar aquilo que aconteceu e a cicatriz continua fazendo parte da história daquela mulher, tanto física quanto emocionalmente.
O objetivo da cirurgia reconstrutiva é oferecer uma possibilidade de reconstrução corporal e, quando possível, recuperar forma, simetria e proporção, melhorando assim a autoestima e retomada da vida normal.
Mais do que reconstruir uma mama, esse cuidado pode ajudar a mulher a se reconhecer novamente diante do espelho, a reconstruir a relação com o próprio corpo depois de tudo o que viveu e por isso, a reconstrução mamária deve ser abordada como parte do cuidado integral da paciente e uma jornada que pode ajudá-la a olhar para si mesma com mais carinho, recuperar a confiança e, aos poucos, voltar a se amar.
O corpo não tem um padrão único de resposta.
A história das Amazonas também nos permite pensar sobre uma questão bastante atual que é a padronização. Durante séculos, diferentes culturas criaram suas próprias ideias sobre como o corpo feminino deveria ser.
Ao longo de séculos, e mesmo na antiguidade, algumas características foram valorizadas, outras rejeitadas. Algumas foram associadas à beleza, outras à força, à maternidade ou à capacidade de desempenhar determinada função.
Hoje, temos uma quantidade enorme de referências e tendências circulando nas redes sociais e justamente por isso, é ainda mais importante lembrar que o corpo não precisa obedecer a um padrão único.
A cirurgia plástica pode ser uma ferramenta importante para reconstrução, tratamento e também para alterações estéticas desejadas pela paciente, mas a decisão precisa ser individualizada e meu papel é ajudar cada paciente a compreender suas possibilidades e tomar decisões conscientes.
Das guerreiras à medicina contemporânea
A narrativa das Amazonas começou para explicar uma figura feminina que intrigava os gregos e a ideia de que elas retiravam uma mama para lutar melhor, tornava o mito sobre essas guerreiras ainda mais instigante e curioso, mas é importante ressaltar que não há de fato, sustentação histórica suficiente para trata-la além de um mito.
Mas todo esse mito, nos permite concluir que a relação de uma mulher com o próprio corpo é complexa de maneira geral, seja pelas dinâmicas culturais, seja pela forma como as questões hormonais alteram muito o corpo feminino dentro de períodos muito curtos de tempo, seja sobre auto percepção.
No entanto, quando uma mama precisa ser retirada por uma doença, temos um ponto adicional de desconforto e a cirurgia plástica reconstrutiva pode representar uma nova etapa desse cuidado. RETOMADA.
Uma das maiores diferenças entre a medicina de hoje e os relatos de milhares de anos atrás é que atualmente, temos conhecimento e tecnologia para olhar para o corpo com muito mais precisão, realizar procedimentos menos invasivos que já satisfazem as pacientes ou abordar a cirurgia com menor extensão e aspectos finais mais satisfatórios, mas independente da escolha, precisamos olhar para o paciente de maneira global e com a mesma atenção.
Nenhuma cirurgia começa no centro cirúrgico, começa na história da pessoa, na avaliação cuidadosa e na compreensão do que realmente faz sentido para sua saúde e para sua vida.




